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Imagina que podes escolher entre duas opções: nascer com um talento acima da média ou com uma capacidade de dedicação insuperável ao que quiseres. Avançar para uma exclui, por completo, a outra opção. Além disso, esta decisão irá influenciar de forma determinante toda a tua vida. Qual seria a tua decisão?

Mesmo num cenário pertencente ao mundo da imaginação, o dilema  mantém a complexidade. O debate sobre o papel que o talento e a dedicação têm na nossa vida continua a ser muito atual. O motivo é simples: ambos continuam, de formas diferentes, a fascinar-nos.

Perante dois resultados apetecíveis, tendemos a seguir a lei do menor esforço. É por isso que, na presença de um talento “puro” e de um expoente máximo de dedicação, optamos pelo talento. Assumimos que, por essa via, será mais fácil alcançar o sucesso. Mas, será mesmo assim? Será o talento o segredo para o sucesso? Nesse caso qual o papel da dedicação? 

Fascinados pelo talento


O talento é percebido como uma elevada aptidão inata para algo. Assumimos que o talento de alguém é elevado desde nascença e dependente da sua genética. O contexto social e as experiências de vida pouco ou nada contam. Faça essa pessoa o que fizer ela estará “destinada ao sucesso”. E todos adoramos o sucesso fácil.

Prova disso é que continuamos a admirar pessoas que estão claramente acima da média. Einstein, Mozart, Jobs e Musk, são alguns dos apelidos que, acreditamos, pertencem ao grupo exclusivo de predestinados. Um grupo de pessoas que foram “abençoadas” pelo talento e graças ao qual alcançaram o sucesso na vida.

Este fascínio pelo talento é o que nos leva a uma procura incessante pelo próximo grande prodígio. As crianças vêem as suas aptidões testadas em múltiplos contextos. A atração e retenção de talento tornaram-se parte do vocabulário das empresas. Os grandes investidores continuam à procura do génio que faça nascer o próximo unicórnio no mundo das startups. 

No meio de tudo isto ninguém questiona se a perceção geral do talento estar associado ao sucesso é verdadeira. Ninguém vê que, contrariamente ao que o instinto nos diz, ter talento pode não significar ter sucesso. Essa “cegueira intencional”  levanta, pelo menos, três grandes problemas.

Experiência, evolução e expectativa


Ignorar a influência que as experiências e o contexto de vida têm em nós é o primeiro erro. Ao fazê-lo estamos a assumir que o talento, só por si, é garantia de sucesso. Se assim fosse, todas as pessoas às quais foi reconhecido um enorme talento teriam conseguido singrar na vida. O que a realidade nos mostra é algo bem diferente. Muitos são os casos de “génios” que lutaram, e ainda lutam, por conseguir manter uma vida digna.

A evolução é o segundo grande problema. Se o talento é inato então o nível que essa pessoa alcançará está limitado à nascença. Independentemente da sua motivação, determinação a possibilidade de se tornar melhor estará sempre fora do seu alcance. Isto leva a que se invista nessa pessoa não pelo que ela poderá vir a ser mas pelo que ela é. Com o passar do tempo essa pessoa acaba por ser descartada em favor de um novo prodígio.

O terceiro, e o maior dos problemas, é o das expectativas. A partir do momento em que alguém é percebido como talentoso, sobredotado ou genial, a pressão torna-se avassaladora. A perfeição é esperada em todos os momentos e, com isso, esquecemo-nos da pessoa por detrás dos feitos. A depressão, a solidão e o suícidio tornam-se, infelizmente, no único caminho possível para alguns.

Compreendo que  perante o brilhantismo do talento seja fácil esquecermo-nos destes problemas. No entanto, há um pequeno pormenor que convém lembrar. É que, embora o talento seja percebido como inato, se formos verificar a sua definição real percebemos que  há uma pequena palavra que faz toda a diferença. O talento é uma aptidão natural, mas que também pode ser adquirida!

Um sinal de esperança


Se o talento pode ser adquirido, significa que está ao alcance de todos? Haverá esperança para quem não é um prodígio? Será possível alcançar o sucesso na vida de outra forma? A resposta a todas as questões é uma: sim, com dedicação!

De certo conheces a história de alguém que, através da sua dedicação, conseguiu alcançar um patamar de excelência. De alguém que, mesmo não tendo nascido um prodígio, consegue, com as suas conquistas, transmitir o mesmo nível de fascínio. Além disso, consegue passar algo bem mais importante: a convicção de que existe esperança. De que qualquer pessoa, em qualquer contexto, pode destacar-se e entrar no lote dos melhores. 

É natural que assim seja. Afinal dedicação significa o “desprendimento de si próprio em favor de outra pessoa ou de uma ideia”. Daqui podemos tirar duas ideias principais:

  • Que o foco passa a estar em algo superior a nós próprios; e
  • Que o controlo fica, por inteiro, nas nossas mãos

Além disso, convém sublinhar que as experiências de vida passam a contribuir também para a performance e sucesso dessa pessoa. 

Ao combinar estes três fatores, o nível de performance alcançado está sempre acima das expectativas e o potencial está sempre no nosso controlo. É graças à dedicação que pessoas “normais” se conseguem transformar em exemplos vivos de superação. É assim que se constroem as lendas.

Tudo isto leva-nos a acreditar que a dedicação pode ser mais valiosa do que o talento. Uma pessoa dedicada estará sempre disponível a fazer mais, irá crescer além do esperado e encontrará sempre sentido em tudo o que fizer. Porém, tal como no caso do talento, existe um pequeno senão. A dedicação, quando se torna excessiva, pode ser altamente destrutiva.

Obcecados pela perfeição


A dedicação é uma ótima competência a trazer na nossa “mochila da vida”. Ainda assim o segredo está na moderação. No caso da dedicação essa regra é de ouro. O limiar entre a dedicação ótima e excessiva é muito ténue e, por isso, fácil de ultrapassar. Quando isso acontece os problemas surgem e só nos apercebemos deles quando já é tarde demais.

O mais frequente continua a ser o multitasking. Fazer muitas coisas ao mesmo tempo, alternar rapidamente entre tarefas ou trabalhar sem pausas. Nada disto é ser produtivo. Compreendo que sirva para libertar energia acumulada ou para demonstrar produtividade. Em ambos os casos as consequências são iguais: um elevado nível de desgaste, baixa qualidade de execução e a necessidade de fazer ainda mais. 

A dedicação extrema também pode originar um fenómeno conhecido como “visão de túnel”. Tipicamente associado ao consumo excessivo de álcool, a “visão de túnel” provoca a diminuição acentuada da visão periférica. Nesse estado só existe o que está à sua frente. O nível de dedicação é tal que só consegues ver trabalho. De fora ficam as outras pessoas, o descanso e as rotinas de bem-estar. O isolamento social acentua-se e a depressão emerge com naturalidade.

Em último lugar, mas não menos importante, está o burnout. A “doença do século XXI” continua a fazer vítimas todos os dias. Para o evitar, há que criar uma base de hábitos saudáveis que incluem a alimentação, o exercício e o descanso. Além disso, há que definir prioridades e reservar espaço para o lazer.. Quando estes princípios são desrespeitados o burnout torna-se uma realidade e a dedicação deixa de existir.

Chegados aqui há uma questão que continua por responder. Se tanto o talento como a dedicação têm vantagens e desvantagens, qual será o melhor para alcançar um sucesso sustentável?

A grande decisão


Nascer com um talento inato ou com uma dedicação exemplar? Pode ser difícil, mas esta é uma decisão que tens que fazer todos os dias. Seja apenas para ti ou envolvendo outros, decidir entre o talento ou a dedicação terá sempre alto impacto na vida.

Por um lado, o talento é raro mas, ainda assim, pode ser encontrado. Garante, desde o inicio, um nível alto de performance e resultados extraordinários. O problema está na falta de “plasticidade” que lhe associamos. Qualquer que seja o nosso nível de aptidão para uma tarefa, o talento que temos, é sempre possível desenvolvê-lo com dedicação.

Por outro lado, a dedicação,  apesar de abundar e poder ser incentivada, só pode ser encontrada nos bastidores. É lá que ela se desenvolve. Para isso é necessário ir além das aparências, do curto prazo e do status quo. Na sua presença é preciso dar-lhe autonomia e prestar o devido reconhecimento. Quando isso acontece o talento surge com naturalidade, porque ele é, não o oposto, mas a consequência da dedicação 

Dito isto, permite-me duas questões para reflexão futura:

– De que vale teres muito talento, em ti ou à tua volta, se não é usado com diligência?

– Por outro, imagina o que conseguirás alcançar se deres o teu melhor em tudo o que fazes?